O despertar do gigante adormecido

Imigrantes levam 1.º de Maio aos EUA<font color=0093dd>*</font>

John Catalinotto
Nunca houve na história dos Estados Unidos um 1.º de Maio como o deste ano. Cerca de três milhões de trabalhadores imigrantes não se apresentaram ao trabalho, fecharam as lojas e desfilaram com as respectivas famílias e apoiantes em pelo menos 60 cidades em todo o país exigindo a legalização do direito de permanecer e de trabalhar no país.
Quando a Câmara dos Representantes deixou passar a lei anti-imigrante designada por HR4437, em Dezembro último, os reaccionários que a propuseram não imaginavam que isso iria desencadear um poderoso movimento que abalaria o situacionismo e inspiraria a classe trabalhadora.
Como parte da sua estratégia anticomunista, o governo dos EUA há muito que transferiu o feriado do Dia do Trabalhador para o início de Setembro, de forma a separá-lo do feriado do Dia Internacional do Trabalhador. Como o 1.º de Maio não é feriado nos EUA, isso significa que quem não vai trabalhar para participar na manifestação está também em greve. Em muitas cidades os grupos de imigrantes apelaram também ao boicote ao consumo nesse dia. Assim, pela primeira vez na história dos EUA, houve não apenas manifestações de massas mas também um boicote e uma greve geral parcial no 1.º de Maio.
Entretanto, a luta no Congresso continua sem sinais aparentes de resolução. O movimento de contestação continua a crescer, mas os imigrantes indocumentados enfrentam ainda a ameaça de novas leis severas e de deportação. Estamos perante um novo movimento pelos direitos cívicos por parte da população que não tem direito de voto, e para quem será extremamente importante conseguir mais apoio do movimento organizado dos trabalhadores, que tem agora a oportunidade de assistir a uma luta que ajudará todos os trabalhadores.
Dezenas de milhões de imigrantes entraram nos EUA desde 1990, com e sem autorização legal. Actualmente há no total cerca de 36 milhões de imigrantes nos EUA. O Pew Hispanic Center estima que em Março de 2005 o número de imigrantes ilegais oscilava entre os 11,5 e os 12 milhões de pessoas. Destes, cerca de 56 por cento são originários do México, 22 por cento do resto da América Latina e das Caraíbas, e 10 por cento da Ásia.

Um factor de desenvolvimento

Pelo menos 7,2 milhões dos imigrantes trabalham, representando cerca de cinco por cento da força de trabalho de um total de 148 milhões. Sucede no entanto que estes trabalhadores estão concentrados em indústrias específicas. «Representam 24 por cento do total de trabalhadores da agricultura, 17 por cento dos trabalhadores de limpeza, 14 por cento da construção civil, e 12 por cento na indústria alimentar», segundo o Pew, e estão concentrados nos trabalhos mais difíceis e perigosos, como por exemplo na colocação de telhados.
Esta concentração significa que em certas partes do país todas as indústrias fecharam no 1.º de Maio. Nenhum dos 175 trabalhadores sazonais apareceu nos 150 acres dos campos de cebolas de Vidalia, no sudeste da Geórgia. Noventa por cento dos trabalhadores portuários de Los Angeles e Long Beach não foram trabalhar. O maior produtor mundial de alimentos, Tyson Foods, Inc. , fechou pelo menos 10 das suas mais de 100 fábricas, sobretudo no Iowa e no Nebrasca. Oito dos 14 aviários Perdue Farms estiveram igualmente encerrados. Mais de metade dos 1147 trabalhadores da construção no Dulles International Airport, em Washington, DC, boicotaram o trabalho.
Jack Kyser, economista-chefe do Los Angeles Economic Development Corp. , disse que um dia de boicote poderia custar qualquer coisa como 200 milhões de dólares à comarca de Los Angeles, que tem a mais elevada concentração de imigrantes mexicanos do país.
Alguns dos grupos de imigrantes apelaram fortemente à greve/boicote no 1.º de Maio. Outros apoiaram simbolicamente as acções de luta, receando enfrentar a repressão. Alguns grupos – incluindo alguns sindicatos – pressionaram no sentido de adiar o protesto de forma a não coincidir com o 1.º de Maio. Nos dias que antecederam a data, a generalidade dos média enfatizou as divergências e tentou dar uma imagem de isolamento dos defensores da luta.
Nada disto fez grande diferença no 1.º de Maio. A esmagadora maioria dos activistas imigrantes queriam uma acção forte e queriam muito que ela fosse no 1.º de Maio. Saíram à rua em todo o país e trouxeram consigo as famílias.

O protesto de todas as comunidades

O Avante! recolheu alguns testemunhos que ilustram o que aconteceu nos EUA.
Segundo o jornalista político Lou Paulson, «foi o maior protesto da história de Chicago, estimado pelos organizadores em 700 000 pessoas. Um mar de trabalhadores imigrantes confluiu para a baixa de Chicago durante três horas consecutivas. Uma floresta de bandeiras de todas as nacionalidades da comunidade de imigrantes de Chicago assinalava a cabeça da manifestação. Apesar de cerca de 90 por cento dos manifestantes serem oriundos do México, houve um contingente notável de outros países da América Latina e também das comunidades palestiniana, irlandesa, polaca, coreana, indiana e paquistanesa».
De acordo com Paulson, «apesar de a maioria dos organizadores da região de Chicago não ter apelado ao boicote ao trabalho, aos negócios e às aulas, o boicote foi claramente assumido pela comunidade. Muitos restaurantes e distribuidores de comida fecharam; muitos empregadores da comunidade mexicana encerraram voluntariamente as portas ou dispensaram os trabalhadores para que se pudessem manifestar».
Em Los Angeles, falámos com John Parker, activista da comunidade afro-americana, que recentemente organizou uma conferência de solidariedade com os imigrantes. «A organização estima que a manifestação de City Hall teve mais de um milhão de pessoas», disse Parker.
«Foi anunciado que 72 000 estudantes faltaram à escola. A marcha de City Hall mostrou mais unidade do que nunca. A Nação do Islão providenciou a segurança. Os oradores incluíram o sacerdote Tony Muhammad do NOI, e o pastor Louis Logan da igreja Baptista Bethel, bem como dirigentes do Concelho Distrital de Trabalhadores do Sudeste da Califórnia, do Grupo Parlamentar PRI e muitas organizações mexicano-americanas».
Hempstead, Nova Iorque, em Long Island, próximo da cidade de Nova Iorque, nunca viu uma tão massiva manifestação de trabalhadores. Mas foi um grupo activo de trabalhadores imigrantes, encabeçado por veteranos da FMLN de El Salvador, que combateram a mobilização racista anti-imigrantes.
Quando Carlos Canales pediu ao mayor de Hempstead autorização para uma manifestação de 800 pessoas, nunca esperou que fossem aparecer 5000. «Trabalhadores e imigrantes de Long Island mudaram hoje a história», afirmou. «Os imigrantes trouxeram de volta o 1.º de Maio».
Os organizadores estimam que mais de 60 empresas de Long Island estiveram encerradas. E ainda enviaram cinco autocarros cheios de gente à manifestação na cidade de Nova Iorque.

Solidariedade dos oprimidos

Em Nova Iorque, centenas de milhares de imigrantes concentraram-se nos arredores de Washington Heights e Chinattown em Manhattan até Jackson Heiights em Queens e Flatbush em Brooklyn, encheram o Union Square Park e desfilaram mais de três quilómetros pela Broadway. Como no resto do país, a maioria dos manifestantes era do México e América Central, mas as comunidades de imigrantes enviaram representantes e oradores virtualmente de todos os países da América Latina e das Caraíbas, da China e Coreia, um grande grupo das Filipinas, do Senegal e de outros países de África, do Paquistão – cujos comerciantes fecharam as suas lojas por uma hora – e Sul da Ásia, Polónia e Irlanda.
O porta-voz do movimento Afro-Americano deixou clara a sua solidariedade. Dirigentes nacionais e locais como Jesse Jackson e Al Sharpton, e o membro do conselho Municipal Charles Barron falaram à multidão na Union Square. «São as grandes corporações que ameaçam os postos de trabalho, não os imigrantes», disse Jackson. Os dirigentes sindicais negros também estiveram presentes. Como Roger Toussaint, presidente do Transport Workers Union Local 100, de Trinidad, acabado de ser libertado da prisão onde cumpriu cindo dos 10 dias da pena que lhe foi imposta por ter dirigido a greve dos transportes em Dezembro. O dirigente do Teamster Black National Caucus, Chris Silvera, que ofereceu as instalações do sindicato em Queens para quartel-general da Coligação 1.º de Maio de Nova Iorque, esteve também presente, tal como Brenda Stokely, da Marcha de Um Milhão de Trabalhadores.
É interessante registar que a grande imprensa atacou Jesse Jackson por apoiar a marcha dos imigrantes. Os média exageraram as divergências entre a população afro-americana e latina. Aparentemente, a classe dirigente quer impedir qualquer possível coligação entre os dois sectores oprimidos da população. Na marcha de Nova Iorque, contudo, a maioria dos trabalhadores religiosos afro-americanos deixaram alegremente os seus escritórios e saudaram a passagem das centenas de milhares de manifestantes.
Este novo movimento enfrenta muitos desafios, sendo o imediato saber como impedir que a legislação reaccionária passe no Congresso. Mas já conseguiu mudar a atmosfera que se vive no centro do mundo imperialista. Ruth Vela, jovem dirigente mexicana de San Diego, resumiu assim o histórico 1.º de Maio: «Hoje mostrámos que o chamado ‘gigante adormecido’ não está a dormir, mas a trabalhar activamente. Se os trabalhadores não receberem o respeito, a dignidade e a justiça que pedem, então irão buscá-los.»


_________________

* - Tradução da versão inglesa por Anabela Fino



Mais artigos de: Temas

Cultura pimba e esquerda gaguejante<br> amortecem queda de Berlusconi

A estreitíssima margem de votos que separou a esquerda da direita nas eleições italianas merece uma leitura das relações entre a política política e a política cultural. Lugar comum é referir o imenso, e ilegítimo, poder alcançado por Berlusconi nos meios de comunicação social por via das estações televisivas de que é...

Utentes exigem <br>reabertura do Ramal de Moura

O encerramento do Ramal de Moura veio afectar a vida de milhares de residentes dos concelhos de Serpa, Moura e Barrancos. Com o objectivo de aproveitar as potencialidades económicas, culturais, ambientais e turísticas desta região alentejana, e porque os meios de transporte colectivos, nomeadamente os ferroviários, representam nesse contexto uma peça essencial, a população da margem esquerda do Guadiana continua a exigir, após 15 anos de luta, a reabertura do transporte de passageiros e mercadorias deste ramal.